São José do Rio Pardo, São Paulo, Brasil

Sempre Aberto

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Um café com alma (e sem agrotóxicos!)

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Uma fazenda desbravada, um delicioso café com pão de nata caseiro, pessoas admiráveis e uma baita aula sobre cultura orgânica e agricultura familiar: a caça ao café IAO foi tudo isso e muito mais. Complicado colocar em palavras uma aventura que tocou tão profundamente a alma dos coffee hunters, mas é dali que vem o relato a seguir.


Para os responsáveis pelo café IAO, José Alexandre e José Alexandre Filho, lidar com orgânicos é mais do que um trabalho: é uma filosofia de vida. Além do café, eles possuem outros negócios na área (uma loja e um restaurante de produtos orgânicos e veganos) e adotam no dia a dia hábitos sustentáveis.


Eles enxergam o ser humano sob uma visão universal e conectada com a natureza. Acreditam que os astros influenciam as plantações, que há troca de energia entre o planeta, os alimentos e os seres vivos. Para eles, a pureza das sementes, a qualidade da água e do solo, a saúde da planta, o bem-estar dos trabalhadores, tudo importa, tudo faz parte da nutrição.


“É o que dá sentido para esse trabalho todo: trazer esses benefícios para o ser humano”, resume Alexandre Filho.


José Alexandre é o grande porta-voz do IAO e um defensor ativo dos orgânicos na esfera política. É ele quem nos conta, com toda propriedade de quem fez parte dela, a história da luta pela criação da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, além da inserção de estudos relacionados a essas áreas nas escolas e universidades. Alexandre Filho, menos da “teoria”, mais da prática, é quem nos leva até a fazenda.


Vários minutos de asfalto depois, o comboio de coffee hunters adentra um estreito caminho de chão batido e logo avista os primeiros pés de café. Vidrados, paramos a caravana e desembarcamos para registar algumas imagens da área. Nosso guia prontamente alerta: “essa é convencional. Ainda não chegamos na plantação orgânica”. Como é uma plantação convencional de café, onde fertilizantes e defensores químicos são permitidos? Extensas fileiras milimetricamente posicionadas, lacunas perfeitamente roçadas, plantas altas, folhas graúdas, galhos longos abarrotados de frutos. Um prato cheio para a beleza plástica das fotografias.


De volta aos veículos, seguimos pela estrada de terra até avistar rastros de civilização: uma casa, galpões, árvores e um senhor recostado em uma cerca. “Ô, seu Pingo, tudo bem?”, diz Alexandre enquanto desce da caminhonete e explica a ele que somos os tais caçadores de cafés. Seu Pingo é o marido de dona Marina, a alma da fazenda. É a matriarca a grande responsável por manter a fazenda inteirinha funcionando organicamente: lá, até as vacas são tratadas com homeopatia e os bezerros têm nomes de verdade.


Voltando ao cafezal, a plantação de café orgânico é o total oposto da convencional. Até demoramos para perceber que estávamos diante do lote certo. “Essa é uma produção típica, da variedade Catuai”, aponta Alexandre para o que parece quase uma floresta, com várias outras plantas além dos cafeeiros. Há capim, ervas rasteiras, bananeiras, algumas poucas e esparsas árvores enormes, de copas largas. Os arbustos de café são irregulares, menos encorpados, com frutos mais espaçados nos galhos. “Isso não atrapalha?”, questionamos, prontamente. Pelo contrário, afirma Alexandre.


“É muito difícil ver isso. Pra gente que está condicionado a ver tudo limpinho… Mas esse método é para restabelecer a vitalidade do solo”, explica, contando que o objetivo é recuperá-lo de quase 100 anos de cultivo ininterrupto. Essas outras plantas têm funções como criar sombra, enriquecer a terra de nitrogênio e contribuir com o sustento da família em outras estações que não a do café. Já a menor quantidade de frutos por galho garante qualidade. “Toda a nutrição, os açúcares da planta, vão ser divididos entre menos grãos”, calcula.


Devido a todas essas características, esse tipo de plantio exige uma colheita manual. “Vem aqui, lambe o galhinho e lá no benefício é que é feita uma pré-seleção”, descreve Alexandre. Depois de colhidos, os frutos são descascados, vão para a secagem natural no terreirão e, finalmente, chegam à torra. Padronizada tanto para dona Marina quanto para os outros três produtores que fornecem à IAO: uma torra média. “Porque não é para esconder nenhuma imperfeição, mas também porque a torra clara deixa a bebida mais sonsa, mais chá. Vira um chafé”, brinca Alexandre.


O dia termina da melhor maneira possível: com um belo café passado por dona Marina (IAO, é claro), pães de nata caseiros e sensação de dever cumprido. “Vocês, contem a nossa história, mostrem bem o trabalho da gente, que precisa ser valorizado. As pessoas não fazem ideia”, recomenda nossa anfitriã. A gente tentou contar a sua história da melhor maneira possível, Dona Marina.